(Lisboa em Outubro, da minha janela)
Quando a semana terminar, os caminhos para Castelo Branco conduzir-me-ão até a um Ocreza feito fio de água e lençóis de lodo, nas margens do qual terei a ilusão de ver, nas primeiras horas da tarde, um cágado que ascende das partes fundas do rio até à luz de outono na beira
(um fino espelho translúcido entre a tartaruga e o humano que a quer agarrar),
mas os pés não obedecerão à coragem e regressarei, as mãos apenas pele, até aos bancos compridos e à mesa de madeira onde Jesus terá no colo um livro de capa amarela, e José fumará um cigarro frenético, em prelúdio da noite bracarense.
Estes búzios que agora solto no tampo da mesa-de-escrever revelam, sem sombra de dúvida, um clima propício para que se desarranjem pensamentos: o coração devia ser como as andorinhas, quebrar a gaiola e partir em voo rasante até aos ventos nos quais o corpo não pode estar, ao bom estilo da incongruência de final de semana, pois claro.
Entre o cabelo caído – a cortar no final da tarde de sábado – encontrar-se-ão palavras engolidas a seco que o espírito não foi capaz de soltar durante a semana, as sílabas varridas na companhia solitária dos longilíneos castanhos. De regresso a casa, com a cabeça mais leve (o espírito vive no íntimo do cérebro), relerei, foi decidido, palavras que tais.
Não choverá, mas ao almoço de domingo direi que sim, cheira a terra molhada (maravilha para o nariz, bálsamo para a mão literária). O restante tempo será passado na estrada, a tentar não regressar à capital, onde raramente surgem perfumes naturais. A semana seguinte principiará com “Clapping Music”, lá para os lados de Belém.
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guilherme
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