(a semana dos 28 está quase a chegar,
é cedo mas as histórias daninhas já querem gatinhar para fora do útero,
a mão do editor prepara-se para abrir a porta do forno e apresentar ao mundo o próximo livro das Edições Tartaruga,
a dissertação de mestrado vai deambulando solitária nas ruas altas de Lisboa,
a Isabel está melhor e não precisa da vesícula,
a neve albicastrense fugiu para Nova Iorque,
os espaços dos livros sucedem-se como formigas, alguém incendeia o bosque de Buzzati e logo Matteo parte para a avenida névski,
os espaços sucedem-se e com eles a vida,
alguém quer ir ao Saldanha ver o Larry David fazer de Woody Allen?,
alguém partilha do meu amor por esta música dos senhores The Antlers?)
A informação chega com oito meses de atraso, mas foi origem de um mover de ancas saracoteante aqui por casa, hoje, ao longo da tarde, à custa das melodias que a acompanharam, pois claro, o que torna a partilha obrigatória: mana e restantes quatro ou cinco leitores do Quinta das Pedras, aqui vos deixo um pedaço do concerto de Abril de 2009 em que Justin Vernon, o sr. Bon Iver, regressou à sua escola secundária para cantar clássicos de Duke Ellington (aos quais acrescentou a “For Emma” e a “Lump Sum”), acompanhado pela banda/orquestra de jazz lá do sítio, na qual o rapaz melancólico participara na sua adolescência.
“I get the blues most every night
Since I fell for you”
diz-nos Vernon neste tema, que não foi escrito por Ellington e sabe tão bem quanto as restantes oito canções do disco.
Quem tiver interesse em conhecer os restantes temas que envie missiva virtual para este vosso servo, ou deixe comentário algures no blogue caso não disponha do meu email, e certamente as músicas encontrarão o caminho até vós.
Findo o vídeo, parti em demanda por palavras portuguesas e, barba ainda rala, encontrei as de Alexandre O’Neill.
“Um homem, diante do espelho, pronto a arrostar com mais um dia de barba — logo desenxabido pelo sólito insólito enquadramento: a sua própria cara.
Não há filosofia matinal que resista a um descaro assim.
Resiste o espelho.
Primeiros socorros: deitar a língua de fora, caretear, esfregar com energia a toalha turca na língua. Ajuda a tirar o sarro.
Fiapos na boca!
O pano turco já não é o que era. Quando menino, atara dois lençois de pano turco um ao outro e a pulso descera da varanda ao pátio. Nem um fiapo lhe sobrara nas mãos. Agora é o que se vê…
Não! O que se vê é, já agora, a cara…
Vamos preferi-la a qualquer outra?
Fácil, repara! Não há outra…
Ela aí, aqui está, estanhada — mas tua!
Mapa de excessos esta cara! Todos lá, até o excesso de servilismo.
Áspera ao tacto, parece a cara de um homem, mas a bochecha-nalga a descair sobre a direita escorre o olho do mesmo lado. Chorão! Por um pouco, cara de cão de água: olho a vazar-se, boca desdém-desgostosa, meio dente à mostra na comissura ascendente.
Assim ia a barba!
Olhou com rancor aquela cara, tomou do pincel. Num assomo, avisou para o espelho:
— Viva eu!
E às pressas ensaboou a sua cara de todas as manhãs.”
Alexandre O’Neill, “Bê-a-Barba”, raptado de Entre a Coriça e a Vidraça (1972)
(em Janeiro quem assim o desejar pode dar comigo a confeccionar bolos, tortas de cenoura, livros e microficções,
a perseguir bolas de futebol em ringues perdidos por Lisboa,
eventualmente até a bailar, quem sabe,
mas hoje sobram ainda dois dias
e o meu Janeiro de 2010 começa às 18 horas do dia 30 de Dezembro de dois mil e nove.)
2004.
Ajuda (ou talvez Junqueira).
Acordar com o Tejo a observar-nos pelas portadas da cozinha.
A luz de Lisboa, pela manhã, no terraço minúsculo.
O gato deslumbrado com o quintal e as fuçanadas.
Boquiabertos, pois claro.
(B Fachada, Desamor)
(na fotografia, Ana Maria, há tanto tempo…)
A irmã e o irmão entre Oxford e Lisboa, 2222 quilómetros de caminho, se puxarmos o fio aparece um blogue bilingue e a porta da Quinta das Pedras, enlaçados ao fio estão os postais e as cartas que ficaram por escrever, as palavras invisíveis desenham uma janela para a marquise, uma janela para a varanda, uma cágada entre mãos no parapeito, de pescoço esticado ao vento para o círculo de andorinhas, batalhas de água na cozinha, manhãs de sol branco frio e os pés na braseira, tardes de céu descoberto a derreter e os pés na pedra cor-de-vinho húmida da varanda, árvores, o parque, a Cátrela dos dentes partidos, um comboio de cimento, bicicletas a três, de passeio até à estrada romana, camisolas de lã nascidas de mãos e paciência maternais, ovelhas, burros, vacas, velhotes surdos, bailarinas, orquestras todos de barro moldados e pintados por dedos de pai, almoços de domingo e jantares de sábado, a dois cavalos branca e um rio Ocreza por retratar, a dois cavalos branca e uma casa de bonecas na quinta dos amigos dos vizinhos, dois vizinhos e um corredor entre as portas abertas, um blogue bilingue de portas abertas e o corredor de 2222 quilómetros desagua em Oxford e em Lisboa, mas no meio descansa Castelo Branco e no regresso ao centro descansamos todos.