we ride tonight ghost horses

•5 Novembro, 2009 • Deixe um comentário

hoje, eternamente.

Cavalos fantasma

(da janela, na parede, a árvore difusa, a memória, you forget so easy, fotografias em 2009, o entardecer de Outubro, redundâncias, vira o disco e toca o mesmo, paradoxo: a nuvem, etérea, é apenas nuvem quando dos altos nos procura; desfaz-se, faz-se água e torna-se imutável, é apenas aquela nuvem por um fragmento de nada, para sempre esta nuvem no tempo da fotografia, e nós cavalgamos esse cavalo-de-algodão crentes do impossível.)


guilherme

As previsões falharam e, ainda assim, o vidente acertou.

•3 Novembro, 2009 • Deixe um comentário

Por vezes as palavras ditas e ouvidas em uníssono perdem o passo, um dos intérpretes desloca-se abruptamente da união arrastando consigo as sílabas, que naturalmente viram dissonantes. Talvez, quem sabe, se reencontrem no fim da espiral, num movimento jamais antecipado por gente inábil com búzios e janelas afins.

(Porém, previsões presentes indicam que tal futuro é improvável.)

“New York Counterpoint”, Steve Reich, 2º Movimento (a peça deve ser ouvida na íntegra, na ordem prevista para os movimentos, tal como qualquer composição minimalista).


guilherme

Fim-de-semana (teste de aferição dos meus talentos enquanto vidente)

•30 Outubro, 2009 • Deixe um comentário

DSCF0863(Lisboa em Outubro, da minha janela)

Quando a semana terminar, os caminhos para Castelo Branco conduzir-me-ão até a um Ocreza feito fio de água e lençóis de lodo, nas margens do qual terei a ilusão de ver, nas primeiras horas da tarde, um cágado que ascende das partes fundas do rio até à luz de outono na beira

(um fino espelho translúcido entre a tartaruga e o humano que a quer agarrar),

mas os pés não obedecerão à coragem e regressarei, as mãos apenas pele, até aos bancos compridos e à mesa de madeira onde Jesus terá no colo um livro de capa amarela, e José fumará um cigarro frenético, em prelúdio da noite bracarense.

Estes búzios que agora solto no tampo da mesa-de-escrever revelam, sem sombra de dúvida, um clima propício para que se desarranjem pensamentos: o coração devia ser como as andorinhas, quebrar a gaiola e partir em voo rasante até aos ventos nos quais o corpo não pode estar, ao bom estilo da incongruência de final de semana, pois claro.

Entre o cabelo caído – a cortar no final da tarde de sábado – encontrar-se-ão palavras engolidas a seco que o espírito não foi capaz de soltar durante a semana, as sílabas varridas na companhia solitária dos longilíneos castanhos. De regresso a casa, com a cabeça mais leve (o espírito vive no íntimo do cérebro), relerei, foi decidido, palavras que tais.

Não choverá, mas ao almoço de domingo direi que sim, cheira a terra molhada (maravilha para o nariz, bálsamo para a mão literária). O restante tempo será passado na estrada, a tentar não regressar à capital, onde raramente surgem perfumes naturais. A semana seguinte principiará com “Clapping Music”, lá para os lados de Belém.


guilherme

Responsabilidade

•22 Outubro, 2009 • 2 Comentários

Pelo meu projecto novo (é todo meu, diz a minha chefe).

Pela casa que ainda não é minha (tens de deixar de ser tao picuinhas, diz o meu marido).

Pelo meu corpo (tens de comer menos gorduras, diz a minha vesícula).

Pela minha cabeca (calma, diz a minha mãe).

Pelo projecto de tricô que comecei há uns dias (as agulhas não têm nada que dizer).

e porque tristezas há muitas, aqui vai o Herman a fazer-me rir, quando tinha 18 anos e ele ainda tinha piada.

À vista estava um papel dobrado em três cujos propósitos já não recordo,

•21 Outubro, 2009 • 3 Comentários

seria porventura um documento de colarinho e gravata pois as suas palavras lamentavam mas, em todo o caso, agradeciam a minha disponibilidade, sem deixarem de considerar a hipótese de eventuais contactos futuros,

ao cimo da correspondência estava essa folha, dobrada em três, cujos verbos derreteram sossegados enquanto um poema se erguia para relembrar as proporções a que as coisas têm direito:

a carta (agora branca) devolvida ao envelope, arquivada na gaveta,

o poema de pulmão inchado no quarto onde alguém o declamou sem ter para quem o declamar,

e a porta trancada de uma morada distante e simultaneamente idêntica à casa da janela dos aposentos onde, ao cimo da correspondência, o papel dobrado em três cedeu lugar a um livro com o canto da página 58 subtilmente voltado sobre si.

DSCF1024
guilherme

This is a fact that you need to know

•17 Outubro, 2009 • Deixe um comentário

he loves you, baby

(o concerto está todo no youtube. Lembra um certo espectáculo que os Wilco trouxeram a Lisboa, com excepção dos ouvidos que olham para o palco)

Nota de importância desmedida: ISABEL e JESUS, ISTO AGORA É APENAS MEU?


guilherme

A palavra de Outubro

•14 Outubro, 2009 • 3 Comentários

Já se lhe conhece o rosto, Maria de Jesus:

caim

Expectativas?

*Fotografia dos amigos Booktailors, directamente da Feira de Frankfurt, que não se poupam a esforços para nos trazer aquilo que os media tradicionais, por vezes (muitas vezes), não trazem.


guilherme

Olhar para o tecto (i)

•13 Outubro, 2009 • 1 Comentário

(em Castelo Branco e Lisboa; falta Oxford)

Na Beira encontramos um horizonte que nos abraça, a formiga diante da estrada aberta, ao cimo da árvore com a ponta do nariz imersa na espuma de um mar em espelho (o melro que observa a barriga da Terra pairando acima das nuvens pendura o bico, curioso, perante aquele pedaço de carne humana que fura e inspira o branco).

.

na horizontal

na vertical

Em Lisboa somos o pardal pousado no poleiro, a cara esmagada no vidro da janela quando o dia se desfaz, sempre e somente quando o dia se desfaz, a luz em fuga no pé de vento que alumia o cimo das árvores vazias (ausentes de mãos que as trepem), oceanos irrespiráveis à esquerda e à direita das janelas.


guilherme

“Do you regret at times not having a life long partner?”

•3 Outubro, 2009 • Deixe um comentário

“Non, je ne regrette rien,
ni le bien qu’on m’a fait,
ni le mal, tout ça m’est bien égal.
Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien

(…)

I don’t have a sense of my life as a story that was written and that I’m reading, I’m not a kind of sentimental guy, I’m blessed with a sort amount of amnesia, and I really don’t remember what went down, I know that it’s engraved in some kind of cellular level, and it’s operating, and it’s there, but I don’t review my life that way.”

Palavras do eterno Cohen, aos 19:29 do vídeo que por aqui deixo.

Três anos depois desta entrevista, Cohen subiu ao palco no Waldorf Astoria Hotel, em Nova Iorque, e agradeceu ao senhores do Rock and Roll Hall of Fame declamando o poema “Tower of Song”. É outro momento perfeito, que se entranha em nós a um qualquer nível celular, que jamais nos abandonará. A nossa vida escrita por alguém que desconhecemos.

“So I bid you farewell,
I don’t know when I’ll be back,
they’re moving us tomorrow
to that tower down the track
but you’ll be hearing from me, baby
long after I’m gone:
I’ll be speaking to you sweetly
from my window
in the tower of song.”

4.44

Aplausos.


guilherme

Pequena provocação a Isabel Pires, a propósito da relação entre o antropocentrismo e o activismo ambientalista

•3 Outubro, 2009 • 2 Comentários

O senhor George Carlin explica:

(calma: é apenas humor. As legendas são ruído, mas não encontrei uma versão completa sem legendagem, infelizmente)


guilherme