Quando eu era pequeno
O Natal chegava
Quando se acendia o madeiro
E o galo sem cantar
No alto do presépio, bem sereno,
Parecia que cantava
Com um sorriso matreiro
E um brilho no olhar.
Todos fazíamos promessas
De tudo mudar para melhor
Naquelas vésperas de mudança
Incumprindo, logo a seguir, a primeira.
A sala ficava toda às avessas
E apesar do frio sobrava o calor
Dos restos de papel e gritos de criança.
Fora assim o Natal a vida inteira!
Mas não. Hoje vem nos trenós reciclados
Pela Coca-Cola com um Pai Natal global
Que finge dar prendas mas apenas oferece
Mil e uma promessas para não cumprir.
Esperando o Natal estão os mal amados
Cujos agasalhos são as folhas de um jornal
Que finge que embrulha e nem sequer aquece
Quem na fome engana a vontade de dormir.
Neste Natal, corremos o risco de ficar calados
Quando é tão ruidoso o silêncio das ofertas
Que afinal não passam de promessas para depois,
Num tempo quase sempre de sorrisos feito.
Usamos a desculpa de estar cansados
Deixando as portas bem abertas
Para que entrem reis magos, vaquinhas e bois
Esquecendo os que ao Natal não têm direito.
Quando eu era pequeno
O Natal chegava num pinheiro
Salpicado com neve natural
E o galo sem cantar, sereno
Ficava longe do madeiro
Resguardado num recanto do quintal.
Será assim o Natal, tranquilo, em toda parte
Sem fome, sem tiros, sem demora,
Sem jogos de interesses e sem promessas,
Se houver quem teime,
Se usarmos como armas apenas a arte
De o não o aceitarmos com é agora
Vivendo o Natal hoje, mas às avessas
E a dizer: lembrei-me!
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As palavras de quem comenta
Idos